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4 de Dezembro de 2021

Intolerância Religiosa

Ingrid Ellen Dalbem Tófoli, Bacharel em Direito
há 4 meses

A intolerância religiosa é algo vivenciado há séculos, mas nesse momento de pandemia tem aumentado. É muito comum a discussão de lideres religiosos que se manifestam de maneira intolerante, a idéia de evangélico no Brasil segundo o pastor da igreja Batista preletor da live de hoje tem se tornado sinônimo de lideranças de intolerâncias religiosa, que nada mais é do que a falta de aceitação de pensamentos e filosofias opostas as nossas crenças. Isso acontece desde os primórdios quando fariseus se opunham aos ensinamentos de Jesus alegando que contrariavam as leis de Moises. Logo, os cristãos foram perseguidos e mortos cruelmente por defenderem sua fé.

Em um breve conceito histórico observamos que o homem, por natureza egoísta e controladora sempre quis deter em suas mãos o poder, diante disso na idade média quando Constantino institui o catolicismo como religião oficial. Observamos o domínio da religião sobre todo o mundo impondo suas regras e dogmas como verdades absolutas, contrapondo assim os ensinamentos deixados por Jesus e criando para si suas próprias doutrinas, que sendo questionadas acusavam seus opositores de hereges. Ao longo da história, ficaram as marcas indeléveis de insultos, perseguições, guerras, exílios e sacrifícios cometidos em nome de uma religião.

Diante desse cenário caótico, Lutero, inconformado com os desvios da igreja e seu domínio, dá inicio a reforma protestante fixando nas portas de uma igreja suas 95 teses criticando a igreja e o próprio papa. Por sua atitude, em 1521 Lutero foi condenado por heresia, vivendo como refugiado. Mas isso não foi impedimento pois o movimento foi crescendo e se espalhando pelo mundo e a igreja criando a companhia de Jesus em 1534, o movimento contra reforma, criando assim o tribunal da inquisição que tinha como função julgar e condenar aqueles que se desviavam dos dogmas da igreja. E hoje, alguns adeptos do protestantismo ferem seus princípios condenando e perseguindo outras cresças que se opuseram a seus pensamentos.

Se observamos é um ciclo vicioso, os perseguidores quando conseguem sua ascensão passam a perseguir, isso acontece quando o homem deixa de entender sua humanidade pecadora e caída e quer ocupar lugar de Deus juiz e perfeito. A bíblia nos ensina que quem convence o homem é o Espírito Santo, mas por décadas o homem decide fazer esse papel, querendo tomar para si essa função conseguindo apenas aumentar as discórdias, intolerâncias e afastamento de pessoas.

Todos sabemos que a religião influência as pessoas, a abolição da escravidão no Reino Unido e nos Estados Unidos no século 19 foi iniciada pelo protestantismo. Precisamos de lideres e membros religiosos que sustentem a igualdade, dignidade humana acima da diversidade do credo da qual a pessoa venha a pertencer ou não. Onde a religião espalhe o amor de Jesus e não o ódio. Na verdade precisa-se falar mais em Deus, pois Ele é o próprio amor e menos de placas denominacionais se assim posso elencar, como um dia ministrou meu pastor “ se placa de igreja fosse boa ela não ficaria do lado de fora”. Também precisamos entender que se a nossa religião se baseia apenas em ir pra igreja e freqüentar os cultos, somos meros robôs programados para viver em sociedade. Pois a verdadeira religião é aquela disposta a ajudar a amar ao seu próximo como a si mesmo.

A Constituição do Império, em seu artigo , caput, diz que “A Religião Católica Apostólica Romana seria a Religião do Império e que todas as outras Religiões apenas seriam permitidas com seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior do Templo, (1824). Com a Declaração Universal dos Direitos Humanos em seu artigo 18 assegurou o direito à liberdade de pensamento, consciência e religião, bem como o artigo da CF/ 88: VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. Segundo Jose Afonso da Silva nessa época a única religião aceitada era o catolicismo e as demais eram apenas toleradas.

Nas escolas por muitos anos o ensino religioso era obrigatório, hoje de acordo com Lei de Diretrizes e Bases, o artigo 33, afirma que “ensino religioso é de matrícula facultativa”, ou seja, caso o aluno não tenha interesse, ele não precisa cursar a disciplina. Nessa disciplina a criança não pode ser persuadida a aceitar ou acreditar em dogmas contrários a suas crenças mas sim ter contato com noções de justiça, cultura e outros temos que se façam necessários ao seu desenvolvimento humano.

Diante disso e dentro do tema proposto, falamos de algumas religiões trazidas por culturas afro-brasileiras e indígenas que sofrem preconceitos. O candomblé , a umbanda atualmente são as mais afetadas. A falta de conhecimento sobre o assunto e apesar da lei 11.645/08 regulamenta a obrigatoriedade do Ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Indígena em todos os níveis de ensino, falta legislação que normatize a produção de livros e materiais de apoio para os professores . Iara defende o ensino da umbanda nas escolas como forma de diminuir preconceitos a sua crença, segundo ela não tem como estudar cultura do povo afro sem falar na religião umbandista. Particularmente eu discordo da opinião dela.

Importantíssimo refletir esse momento delicado que atravessamos, há falta de aceitação humana que gera cada vez mais guerras e distanciamento do principio maior que é o amor, o evangelho prega o amor, a paz e respeito dentro outros assuntos relacionamos ao bom convívio e aceitação dos nossos irmãos na fé, visto que não somos juízes de ninguém, papel esse, delegado apenas a Deus.

Locke defende que é possível sim existir tolerância religiosa, para ele heresia não é discordar da religião alheia, mas dentro da sua própria doutrina não viver aquilo que se prega, cada um cultua da melhor forma aquilo que para ele é oferecido de forma agradável a Deus.

Católicos, umbandistas e evangélicos vivem em uma cruel luta religiosa, pois o perigo maior não está na religião mais no ser humanos e em seus pensamentos pré- estabelecidos, suas convicções que partem de suas idéias e não mais do verdadeiro evangelho de Jesus que busca levar o amor e a paz a todos.

Precisam-se criar políticas para impedir atritos e interesses opostos, havendo mediação e um diálogo religioso a fim de reduzir e diminuir tais intolerâncias. Em termos estatutários a igreja Batista respeita o pluralismo religioso, igreja a qual eu pertenço. Mas isso não significa que eu deve aceitar suas crenças e ideologias.

Precisamos considerar que a liberdade religiosa é fundamental para preservar o estado democrático de direito, o estado precisa preservar as práticas religiosas, garantindo qualquer movimento em seu espaço territorial bem como proteger a forma de pensar e as crenças de cada individuo sem levar ao extremo e condenar suas oposições a outras ideologias desse mundo moderno, pois o fato de alguém não concordar com tudo não a torna preconceituosa ou intolerante, pois, se falamos em liberdade e respeito a liberdade religiosa, devemos frisar que nossas convicções advindas da mesma, também merecem respeito. Deve existir um equilíbrio de pensamentos, onde o direito do outro vai até onde começa o meu, partindo desse ponto eu não posso ser considerada preconceituosa ou intolerante se aquilo que está sendo apresentado fere meus princípios morais e religiosos.

O que precisa haver de fato é equilíbrio em tudo nessa vida. Respeitando sempre o ser humano como sujeito de direitos, deveres e obrigações dentro de um estado democrático. Pois tudo está sendo levado ao extremo, as pessoas não tem mais tolerância com nada. Fala-se muito em liberdade religiosa, mas se eu dependo meu ponto de vista e minhas crenças sou taxada como preconceituosa, e a pergunta que fica é: eu posso me opor sem ser considerada intolerante a algo, ou preciso me calar para não ser discriminada por minha forma diversa de pensamentos?

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